Conhecida como a Rainha do Mar, Iemanjá é um dos Orixás mais cultuados no Brasil, com festas públicas tradicionais em sua homenagem, especialmente em cidades litorâneas. Celebrada no Candomblé e na Umbanda, ela é lembrada como regente dos lares e protetora da família, atuando em uniões, aniversários, festas de casamento e comemorações que envolvem família, seja ela de sangue ou construída pela vida.
Seu título de Rainha do Mar não é à toa: Iemanjá é considerada detentora de poder sobre as águas e, por isso, seu território se relaciona com ambientes aquáticos, em especial as águas grandes, com leituras que variam conforme tradição e fundamento. Ela é muito reverenciada em culturas africanas e em religiões de matriz africana no Brasil, como Umbanda, Candomblé e Quimbanda, que preservam narrativas, cantos e formas de culto ligadas à união familiar, proteção e cuidado.
Neste artigo, vamos conhecer mais sobre esse importante Orixá: suas origens, seu mito e como honrar essa divindade com respeito cultural e consciência no modo de celebrar.
A origem de Iemanjá: como ela se tornou a Rainha do Mar
Antes de falar do culto no Brasil, vale voltar à raiz. Iemanjá é uma Orixá de origem africana, presente em tradições religiosas diversas, e sua história tem nuances que mudam conforme o contexto, a nação e a forma de culto.
Também conhecida em muitas leituras como protetora dos navegantes, Iemanjá aparece como divindade central no Candomblé e na Umbanda, além de ser mencionada em religiões como batuque, Xangô do Nordeste, Omoloko e Xambá. Embora seja conhecida como a Rainha do Mar no Brasil, há tradições em que ela se liga originalmente às águas que correm para o mar, como rios, antes de ganhar, aqui, o lugar simbólico tão forte nas águas salgadas.
A origem do mito
O mito é mais do que um enredo antigo. Ele explica por que um Orixá é ligado a determinados símbolos e quais temas humanos aparecem no culto, como proteção, família, ferida, dignidade e retorno ao lar.
De acordo com a mitologia iorubá, Iemanjá, cujo nome é traduzido com frequência como “mãe dos filhos-peixe”, é filha de Olokun, soberano dos mares. Com a finalidade de proteger sua filha, Olokun teria dado a Iemanjá uma poção capaz de ajudá-la a fugir de perigos.
Após crescer, Iemanjá casou-se com Oduduá, com quem teve 10 filhos Orixás. Inclusive, por isso, seu nome também é associado à ideia de “mãe de muitos Orixás”. O ato de amamentar seus herdeiros fez com que seus seios crescessem muito.
Conforme o tempo passava, Iemanjá ficava mais triste e infeliz, pois seu marido caçoava dela por causa do tamanho de seus seios. Um dia, cansada da vida que levava em Ifé, onde morava, decidiu seguir para Abeokutá. Nesta jornada, apaixonou-se pelo rei Okerê. Porém, para ficar com ele, a Rainha do Mar exigiu uma condição: que seus grandes seios jamais fossem motivo de chacota, com a qual ele concordou imediatamente.
Certo dia, após Okerê beber muito, ele começou a zombar dos seios de Iemanjá que, arrasada, fugiu. Okerê ainda tentou persegui-la para desculpar-se, mas já era tarde. Lembrando-se da poção mágica que havia recebido de seu pai, Iemanjá a despejou sobre a terra, dando origem a um rio, que seguia para o mar.
Os mitos contam que, para tentar impedir Iemanjá de fugir, Okerê ainda se transformou em uma montanha, de forma a impedir o curso do rio antes que este chegasse ao mar. Iemanjá pediu ajuda a seu filho Xangô que, com um raio, partiu a montanha ao meio, permitindo que a água seguisse o seu caminho. Desta forma, Iemanjá encontrou o oceano, voltando para junto de seu pai.
Esse mito costuma ser lido como uma narrativa sobre dignidade e proteção: quando o corpo vira alvo de humilhação, Iemanjá escolhe a saída, e o caminho até o mar vira símbolo de retorno à força original. Em vez de romantizar dor, a história enfatiza limite e reconstrução, temas que aparecem com frequência nas homenagens à Rainha do Mar.
O culto no Brasil: o surgimento de Iemanjá como Rainha do Mar
Quando o culto atravessa oceanos, ele também ganha camadas históricas. O Brasil não recebeu apenas pessoas africanas escravizadas, recebeu religiões, memórias, fundamentos e modos de existir que precisaram sobreviver em ambiente de violência e repressão.
O papel de Rainha do Mar, hoje amplamente associado a Iemanjá, ganhou força após a chegada dos povos africanos escravizados no Brasil. Como vimos, originalmente, Iemanjá é apresentada como divindade associada a rios que correm para o mar, além de maternidade e família. Embora fosse ligada a águas “maiores” em algumas tradições, ela ainda não ocupava, em todos os contextos, o lugar exclusivo de Rainha do Mar.
Com a colonização e a travessia forçada, o mar passou a desempenhar um papel central. Entre Brasil e África, o oceano tornou-se símbolo de ruptura, sobrevivência, perda e saudade. Para muitos, o caminho de volta para casa não era mais o rio que deságua no mar, era o próprio mar, imenso e definitivo.
Assim, Iemanjá, divindade associada ao lar e à família, foi gradualmente relacionada às águas salgadas. Com o passar do tempo, oferendas passaram a ser entregues ao oceano, fortalecendo essa ligação. E foi assim que Iemanjá se tornou, por fim, a Rainha do Mar no imaginário brasileiro, sem apagar suas raízes anteriores, e sim ampliando a forma como o culto se expressou aqui.
Iemanjá e o sincretismo com Nossa Senhora dos Navegantes
Sincretismo não é “misturar tudo” nem dizer que figuras diferentes viraram a mesma coisa. Ele é um processo histórico e social, marcado por repressão religiosa e pela necessidade de preservar cultos e identidades sob vigilância.
Acredita-se que o sincretismo entre Iemanjá e Nossa Senhora dos Navegantes tenha começado no século XVIII, quando houve conflitos ligados ao choque entre religiões africanas e o catolicismo dominante no Brasil. Naquela época, antes de partir para as travessias, navegantes frequentavam a Santa Missa e pediam proteção à Nossa Senhora dos Navegantes. Dessa forma, se sentiam mais confiantes para entrar naqueles barcos, enfrentar o mar e possíveis tempestades.
Para que pudessem manter suas tradições religiosas sem proibições, povos africanos escravizados passaram a associar Orixás e divindades africanas a figuras católicas com funções semelhantes. Esse processo de sincretismo permitia que práticas de culto aos Orixás, como Iemanjá, fossem preservadas sob a aparência do catolicismo.
Nossa Senhora dos Navegantes, venerada como padroeira das viagens marítimas e protetora de quem navega, tornou-se uma referência possível nesse contexto. Ambas as figuras, Iemanjá e Nossa Senhora dos Navegantes, simbolizam proteção, cuidado e vínculo com as águas.
E foi assim que Iemanjá, divindade das águas e Rainha do Mar, passou a ser associada a Nossa Senhora dos Navegantes em algumas leituras populares e regionais. Vale lembrar que, por se tratar de uma figura central, Iemanjá também foi associada a outras santidades católicas. Além de Nossa Senhora dos Navegantes, ela pode aparecer ligada a Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora da Piedade, à Virgem Maria e Nossa Senhora das Candeias, dependendo do lugar e da tradição.
Esse ponto merece cuidado editorial: a associação varia por região, tempo e contexto social, e não transforma duas figuras diferentes em “uma só”. Em religiões de matriz africana, fundamento e culto têm suas próprias lógicas, enquanto no catolicismo as santidades seguem outra estrutura. O sincretismo explica convivência histórica, não apaga diferenças.
2 de fevereiro: Dia de Iemanjá
A data mais popular para celebrar o Dia de Iemanjá acontece em 2 de fevereiro, embora esse Orixá seja cultuado durante todo o ano. A maior festa pública dedicada à Rainha do Mar ocorre em Salvador, capital da Bahia. Neste dia, milhares de pessoas vestem branco e seguem em procissão. Muitas pedem que ela abençoe seus lares e suas famílias, pois ela também é lembrada como protetora dos lares e das crianças.
Também é comum que as pessoas sigam até o mar para homenageá-la, agradecer bênçãos atribuídas a Iemanjá e entregar presentes. Em algumas cidades, a festa se mistura à memória do bairro, à vida de pescadores, ao trabalho de quem vive do mar e à tradição familiar que atravessa gerações.
É interessante notar que, além de 2 de fevereiro, o Dia de Iemanjá também é comemorado em outras datas. Outras celebrações também são realizadas em 15 de agosto, 8 de dezembro e, claro, 31 de dezembro, quando muitos pedem as bênçãos de Iemanjá para o ano que se inicia, como acontece na tradição das 7 ondas. Quando essas datas aparecem, vale lembrar que, em geral, elas se conectam a tradições locais e a calendários religiosos diferentes, e por isso mudam de região para região.
Quais são as características e qualidades de Iemanjá
Com o sincretismo religioso, sua imagem se transformou. A Rainha do Mar recebeu padrões mais europeus, para que a Igreja se sentisse à vontade com sua imagem. No entanto, vale lembrar que, originalmente, Iemanjá era representada por uma mulher de pele escura e seios grandes.
Falar sobre as características originais da Rainha do Mar é mais do que importante. Além de evitar apropriação cultural, recuperar características africanas de Iemanjá é uma forma de demonstrar respeito às divindades iorubás e aos povos e culturas africanas. Ao mesmo tempo, é útil lembrar que representações variam conforme tradição e contexto, e que a imagem, por si só, não substitui fundamento e respeito.

As qualidades de Iemanjá
Iemanjá rege nossos lares, as casas e a família. Ela traz união entre as pessoas, sejam elas ligadas por sangue, ou não. Conhecida por seu canto doce, que dizem acalmar até o coração mais aflito e trazer paz e alegria, abençoa reuniões, aniversários, festas de casamento e comemorações familiares, trazendo amor e harmonia para todos.
Na hora do parto, é Iemanjá quem apoia a cabeça do bebê, para que tudo dê certo em seu nascimento. Estimula não só a geração de crianças, mas também a criatividade, o desenvolvimento de ideias, amor e bem-estar.
Outras características e qualidades de Iemanjá importantes estão presentes no fato de ela receber a todos de braços abertos, sem julgar ou minimizar o problema de ninguém. Sempre disposta a ajudar, a Rainha do Mar tem as portas de sua casa abertas para quem tiver fé. Iemanjá é aquela que transmite bondade, confiança e dá bons conselhos. Manifesta-se em nossa necessidade de sabermos que aqueles que amamos estão protegidos e bem.
Esse retrato também aponta um lado exigente da maternidade simbólica: Iemanjá não fala apenas de acolher, fala de sustentar. Em termos de vida prática, isso costuma tocar temas como responsabilidade dentro de casa, limites em relações familiares, cuidado sem excesso e proteção sem controle. Quando a pessoa se aproxima desse Orixá, muitas vezes ela se depara com a própria forma de amar, cuidar e organizar vínculos.
Agora que você já conhece algumas características e qualidades de Iemanjá, já pode pensar em seus próximos pedidos, focando sua energia na família e na harmonia em casa. Com certeza, esse Orixá poderoso vai atender as suas orações.
O que posso oferecer a Iemanjá, a Rainha do Mar
A maneira mais popular de homenagear Iemanjá consiste em entregar oferendas ao mar, que é tido como a morada dessa importante divindade. Ao mesmo tempo, esse tema exige responsabilidade, porque o mar não é lugar para descarte. Homenagem que vira lixo quebra o sentido do culto e ainda agride o território que está sendo reverenciado.
Aqui, falaremos um pouco sobre as diversas maneiras de homenagear Iemanjá, desde oferendas no mar até pequenos rituais para fazer em casa. Confira!
Oferecendo presentes para Iemanjá no mar
Caso deseje homenagear Iemanjá por meio de oferendas no mar, é importante lembrar que, mesmo querendo celebrar a divindade, ainda é importante termos consciência ambiental. Respeito ao mar faz parte do sentido da homenagem, e isso vale tanto para quem tem fé quanto para quem participa por tradição cultural.
Por isso, ao fazer oferendas no mar, prefira ingredientes naturais e biodegradáveis, como flores, ervas e grãos, sempre sem fitas, embalagens e plásticos. Além disso, em muitos lugares existem orientações locais e práticas de terreiro específicas, então observar o que a comunidade faz com cuidado e discrição costuma evitar erro e desrespeito.

Ritual para fazer em casa: atraindo energias positivas com Iemanjá
Esse pequeno ritual para pedir a Iemanjá que possa abençoar seu lar e a sua família pode ser feito em casa. Ele deve permanecer em casa, como um gesto simbólico, e não deve ser levado ao mar, justamente para evitar impacto ambiental e descarte inadequado.
Você vai precisar de:
1 prato de louça branco;
1 vela de sete dias azul clara;
3 rosas brancas;
1 espelho de bolso;
1 pó compacto;
3 moedas de 50 centavos;
perfume com cheiro de talco.
Para começar, tire com cuidado as pétalas das rosas e coloque-as no prato. Então, coloque a vela bem ao centro, com o espelho, as moedas e o pó compacto em volta. Em seguida, acenda a vela e borrife nela o perfume de talco 3 vezes. Por fim, mentalize os seus pedidos para Iemanjá e deixe o prato em um lugar seguro durante os sete dias de duração da vela.
Assim que terminarem os sete dias, recolha todos os materiais do prato, coloque em um saco plástico e descarte no lixo (inclusive as moedas). O prato pode ser lavado e usado normalmente depois disso.
Aqui vale um ajuste de responsabilidade, sem desautorizar o ritual: se você quiser manter a simbologia e reduzir impacto, você pode adaptar itens para uma versão mais simples e menos “resíduo”, trocando objetos que viram descarte por elementos simbólicos mais limpos. Por exemplo, manter o prato, a vela e as rosas, e substituir espelho, pó e perfume por um copo de água e uma prece curta. Se houver descarte, descarte corretamente e evite jogar qualquer item em água corrente, praia ou areia.
Se conectando com Iemanjá
Sem dúvida, a ajuda de Iemanjá, pode trazer muita harmonia para o seu lar e para a sua vida. Caso queira, você pode ainda melhorar suas energias com um banho de limpeza energética.
Caso queira garantir ainda mais bênçãos da Rainha do Mar para a sua casa e sua vida, fale com nossos Pais e Mães de Santo, que também podem te ajudar por meio de uma consulta de Búzios.
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Sou a Samira Rhein, redatora do Astrocentro. Sou apaixonada pelo universo místico e pela força transformadora das palavras. Há mais de 10 anos, venho explorando a comunicação de forma sensível e acolhedora, tornando a espiritualidade mais próxima e acessível para quem busca respostas. Gosto de escrever com profundidade, sempre com o desejo de iluminar caminhos e abrir portas para o autoconhecimento. Afinal, acredito que cada frase pode despertar a magia que existe dentro de cada um de nós.

