Mesmo com todo o acesso à informação nos dias de hoje, a intolerância religiosa tornou-se realidade constante. Nos mostrando que nem sempre há respeito entre as diferentes crenças, ela ainda acontece com frequência no dia-a-dia das pessoas de diferentes fés.
Infelizmente, é bastante comum nos depararmos com situações em que o preconceito e a discriminação são recorrentes. Estamos vivendo em uma época em que as pessoas sentem que têm o direito de pensar o que querem sobre o próximo e agir desumanamente com base nisso.
Quando o assunto é religião, o preconceito tem um nome: intolerância religiosa. Essa prática, cada vez mais comum, é baseada no conceito de que aquilo em que alguém acredita é levado como verdade absoluta. A necessidade de impor a própria crença sobre as demais faz com que haja pouco espaço para a diversidade, e na verdade afasta ainda mais as pessoas do princípio divino.
O que muitas pessoas não sabem é que a intolerância religiosa é crime e pode receber punições muito sérias. Pensando em conscientizar as pessoas sobre isso e espalhar o respeito nos corações, trouxemos algumas informações sobre o tema nesse artigo. Confira!
O que é intolerância religiosa?
A intolerância religiosa acontece sempre que há discriminação por crenças e práticas oriundas da religião. É um ato de julgamento, desrespeito e ofensa para com outras pessoas que não são adeptas da mesma religião que você.
Este tipo de afronta acontece, com mais frequência do que imaginamos, muitas vezes até mesmo fora de liturgias ou cultos. Muitas vezes, nem nos damos conta de que estamos praticando a intolerância religiosa – por isso, reunimos aqui algumas informações pra lá de importantes.
Como acontece a intolerância religiosa no Brasil?
No nosso país, a intolerância religiosa acontece todos os dias. De acordo com os dados do último censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as religiões no Brasil apresentam os seguintes dados:
– 56,7% se declaram católicos
– 26,9% se declaram protestantes, ou seja, evangélicos, tradicionais, pentecostais e neopentecostais
– 9,3% declaram-se sem religião, ou seja, ateus, agnósticos ou deístas
– 1,8% declaram-se espíritas
– 4,2% declaram-se seguidores de outra religião, como budistas, judeus, esotéricos e espiritualistas
– 1,1% declaram-se seguidores de religiões de matriz africana
Esses são os últimos dados coletados pelo Instituto, em 2022. Analisando-os, podemos ver que existe uma religião que é majoritariamente praticada pelos brasileiros.
Segundo dados do canal de denúncias do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), o Disque 100, em 2024 foram registrados 3853 violações motivadas por intolerância religiosa. Isso mostra um espantoso aumento de 80% sobre 2023, quando foram registrados 2128 casos.
Dentro desses casos, as religiões que mais sofreram preconceito foram a Umbanda (com 234 casos) e o Candomblé (com 214 casos).

Intolerância religiosa – o racismo religioso
É preciso usar o termo racismo religioso porque, quando analisamos o número de casos de intolerância religiosa no Brasil, percebemos algo muito triste. Isso porque a Umbanda e o Candomblé estão entre as religiões menos praticadas em nosso país. No entanto, ainda assim, são as que mais sofrem problemas por intolerância religiosa.
Quando nos damos conta de que estas são religiões de matriz africana, é impossível não nos perguntarmos a origem do preconceito. No caso das religiões de matriz africana, a intolerância religiosa pode ser associada a uma triste realidade, que chamamos de racismo religioso.
O que é racismo religioso?
Usamos o termo racismo religioso para denotar o preconceito e os ataques a religiões de origem africana. Este tem raízes muito antigas. Isso porque, desde os tempos da escravidão, as práticas religiosas de matriz africana foram associadas a práticas negativas e ao mal.
Neste contexto, a intolerância religiosa deixa de ser apenas motivada pela crença. Muito além disso, o racismo religioso é um reflexo do racismo estrutural, que é o racismo arraigado na estrutura social – ou seja, nas leis, na cultura, instituições e práticas da sociedade.
Embora a escravidão tenha sido abolida há mais de um século, esse preconceito ainda se manifesta nos dias de hoje. Os discursos de ódio e ataques a terreiros, ofensas públicas e tentativas de silenciamento, refletidos nos números de que falamos acima, são uma triste prova desta realidade.
Estas religiões estão diretamente ligadas à cultura e à ancestralidade da população negra no Brasil. Desde o período da escravidão, as religiões de origem africana foram, assim como seus praticantes, perseguidas e criminalizadas, associadas à falta de moral por serem diferentes do padrão caucasiano e cristão praticado pela maioria colonizadora.
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A demonização de fés diferentes – a dicotomia religiosa no Brasil
Como vimos, muitas vezes a intolerância religiosa tem origem em algo mais profundo do que apenas a diferença de crenças. Podemos perceber essa divisão ainda mais claramente se pensarmos que, mesmo com toda a diversidade presente nos dias de hoje, aquilo que foge ao que muitos acreditam ser “normal” se torna alvo de desconfiança.
Num país onde a grande maioria é católica ou cristã, estas religiões se tornam a normalidade. Mesmo com tantos escâncalos acontecendo nos bastidores do cristianismo – como casos de abuso sexual e de poder, exploração financeira e enriquecimento ilícito –, dificilmente as religiões cristãs são associadas a uma imagem negativa, como acontece com as religiões afro-brasileiras.
Intolerância religiosa é xenofobia?
A intolerância religiosa tem origem na dificuldade de aceitação de crenças diferentes. Já a xenofobia é a aversão e o preconceito contra pessoas de países diferentes que o seu. São formas de preconceito diferentes mas que, ainda assim, se mesclam no caminho.
Isso porque muitas vezes a religião está diretamente ligada com a cultura de um povo. Algumas pessoas usam disso como principal arma de ofensa contra a cultura, expressando xenofobia e intolerância religiosa em conjunto.
Outro grande exemplo de intolerância religiosa associada à xenofobia são os povos muçulmanos, que vêm do Oriente ou de outros lugares. Para eles, a religião é uma parte fundamental da vida e do cotidiano e, com isso, acabam sofrendo julgamento extremo.
Ecumenismo: a cooperação contra a intolerância religiosa
Vale lembrar que combater a intolerância religiosa e o racismo religioso não significa atacar ou generalizar a fé cristã. Muito pelo contrário: mesmo diferentes fés cristãs defendem o diálogo inter-religioso e o respeito às diferentes crenças.
O ecumenismo é a prova disso, e baseia-se na crença de que a fé não deve ser, jamais, utilizada para a exclusão, mas sim para unir. Mesmo com todas as diferenças, fés de origem diversas têm em comum a crença em um poder maior, e este princípio deve ser relembrado sempre.
Um exemplo de figura cristã que pratica este ecumenismo é o Padre Júlio Lancellotti. Conhecido por seu trabalho junto a causas sociais pra lá de importantes, ele atua no apoio a pessoas em situação de rua e na defesa dos direitos humanos, incluindo o apoio a pessoas LGBTQIA +.
Infelizmente, até mesmo o Padre Júlio é vítima de intolerância. Por conta da abrangência de seu trabalho, que muitas vezes vai além do que prega a Igreja Católica, o religioso tem sofrido ataques e tentativas de deslegitimação.
Infelizmente, esse é um exemplo que mostra que a intolerância religiosa não se limita a fés diferentes. Infelizmente, ela também acontece quando práticas de fé populares, como as do Padre Júlio, discordam do discurso proposto por estruturas maiores, mais rígidas e propícias à exclusão.
Como a intolerância religiosa é tratada judicialmente?
Embora muitas pessoas não saibam, intolerância religiosa é crime. A lei está prevista no artigo 5 da Constituição Federal de 1988, lei nº 9.459 criada em 13 de maio de 1997. O artigo diz que o Estado brasileiro é laico – ou seja, a posição nacional perante todas as religiões é neutra. Logo, todas podem existir de acordo com a vontade de seus praticantes.
Essa lei prevê punição para todo e qualquer crimes de injúria, ofensa e discriminação por raça, cor, etnia, procedência nacional ou religião. A punição é de até três anos de reclusão e multa para quem cometer o ato. Logo, se um dia você sofrer algum tipo de intolerância, você pode e deve denunciar! Para isso, basta ligar para o Disque 100 (Disque Direitos Humanos) e relatar o caso.

Como trabalhar o respeito para com os outros?
Como vimos, a intolerância religiosa pratica o contrário do respeito, do amor e da compreensão com o próximo, essenciais a muitas religiões. Além de ser uma atitude merecedora de repúdio, é crime.
Se um dia você já agiu assim com alguém, repense. Muitas vezes, os outros são como espelhos: o que nos incomoda neles, na verdade, é o que incomoda em nós mesmos. Lembre-se de que a maneira como você trata os outros diz muito sobre quem você e o que carrega dentro de si.
Para evitar a intolerância religiosa, é imprescindível promover o contato entre pessoas de diferentes fés, como celebrações e encontros de religiões. Assim, em vez de concentrarmo-nos nas diferenças, podemos pensar nos pontos em comum. Quando fazemos isso, vemos que todas as formas de fé, por mais diversas que sejam, têm um objetivo maior: nos conectar com o divino, através da harmonia e do amor.
Agora que você já sabe a importância de falarmos sobre a intolerância religiosa, aproveite também para ler:
- Existe vidas passadas? Religião x Ciência
- A origem do Candomblé
- A história da Umbanda
- Santos católicos na Umbanda

Sou a Samira Rhein, redatora do Astrocentro. Sou apaixonada pelo universo místico e pela força transformadora das palavras. Há mais de 10 anos, venho explorando a comunicação de forma sensível e acolhedora, tornando a espiritualidade mais próxima e acessível para quem busca respostas. Gosto de escrever com profundidade, sempre com o desejo de iluminar caminhos e abrir portas para o autoconhecimento. Afinal, acredito que cada frase pode despertar a magia que existe dentro de cada um de nós.

